10.04.15

A revolta das estatísticas

Desemprego, emigração, dívida pública, défice excessivo, queda do produto, queda do investimento, défice comercial, pobreza, desigualdades: parece a revolta das estatísticas contra a propaganda do Governo.

Mas as estatísticas são apenas retratos de uma verdade inconveniente.

Enganado pela sua própria fantasia, Passos Coelho não se conforma com a verdade dos números. Aproveitando o silêncio cúmplice da imensa galeria de pretensos “institucionalistas” que ocupam o nosso espaço público, subitamente desaparecidos, o primeiro-ministro entrou numa estranha guerra contra a autoridade estatistica nacional. A gota de água que fez transbordar o copo é conhecida e é mesquinha: Passos Coelho não gostou dos números do desemprego (com a taxa de novo a subir, atingindo os 14,1% no passado mês de Fevereiro).

Num gesto inédito, e perigosamente corrosivo da credibilidade das instituições, o primeiro-ministro foi ao ponto de exigir explicações públicas ao INE, forçando-o a vir a terreiro em defesa da sua honra e da sua integridade técnica. Descontente com a mensagem, Passos Coelho investiu numa cruzada contra o mensageiro. 

Sucede que o INE – que tive a honra de tutelar durante seis anos, como ministro da Presidência – não merecia isto. O INE é hoje uma instituição credível, respeitável e respeitada a nível nacional e internacional, bem integrada no sistema estatístico europeu, sob coordenação superior do Eurostat. Sujeitos às normas estatísticas europeias e internacionais, o INE e os seus funcionários cumprem tradicionalmente a sua missão com reconhecida competência e com exemplar autonomia técnica, independentemente do poder político e dos interesses. O ataque inusitado do primeiro-ministro à autoridade estatística atinge injustamente a credibilidade de uma das principais instituições de referência para o reforço da confiança no País e é mais um péssimo serviço que Passos Coelho presta ao interesse nacional. 

É claro, bem percebemos a razão de tanto azedume: a triste realidade da subida do desemprego não podia ser mais inconveniente para a propaganda do Governo em ano de eleições e para a sua obsessiva crença nas fantásticas virtudes da “austeridade expansionista”. Ainda há pouco, deixando-se levar pelo balanço, como vem sendo hábito, o ministro da Economia, Pires de Lima, tinha anunciado o propósito de chegar ao final do seu mandato com uma taxa de desemprego “inferior” aquela que existia no 2º trimestre de 2011, ao tempo do fim do último, e malvado, Governo socialista. Ora, mesmo assumindo um tão modesto objectivo (vale a pena lembrar que o Memorando inicial da ‘troika’ previa para 2015 uma taxa média de desemprego não superior a 10,8%…), o que os dados do INE dizem é que mesmo esse modesto objectivo do Governo está longe de ser cumprido: em Junho de 2011, não obstante os efeitos da Grande Recessão internacional e da crise das dívidas soberanas, o desemprego ficava-se pelos 12,1%; agora, depois de quatro anos de Governo da direita, a taxa de desemprego, em vez de baixar, subiu para 14,1%. E, segundo o INE, continua a aumentar. 

Todavia, o que mais impressiona nos dados do INE nem é a evolução dos números do desemprego, mas sim do emprego. Vejam só: quando este Governo chegou, em Junho de 2011, havia em Portugal 4,893 milhões de pessoas com trabalho; hoje (dados de Fevereiro) são apenas 4,399 milhões! Contas feitas, a governação de Passos Coelho e Paulo Portas, com a sua aposta absurda na austeridade além da ‘troika’ e o seu apelo à emigração, conseguiu destruir, em termos líquidos, nada mais nada menos do que 494 mil empregos (!) em apenas quatro anos. Uma verdadeira catástrofe!

Infelizmente, esta destruição brutal de quase meio milhão de empregos está muito longe de ser um mero erro estatístico. É, isso sim, a consequência de um gravíssimo erro de política económica, que podia, e devia, ter sido evitado. Por muito que Passos Coelho queira pedir contas ao INE, isso não o dispensará de prestar contas, ele próprio, ao País. E já faltou mais.

 

Artigo de opunião publicado no Diário Económico de 10 de abril de 2015 e na sua página online.