05.04.13

Condições anímicas?

Há muito que a permanência do ministro Miguel Relvas no Governo se tornou motivo de espanto e indignação no País inteiro. A sua demissão era, pois, inevitável, a bem até do próprio Governo.

Há muito que a permanência do ministro Miguel Relvas no Governo se tornou motivo de espanto e indignação no País inteiro. A sua demissão era, pois, inevitável, a bem até do próprio Governo. O que surpreende, portanto, não é que o Ministro tenha saído. O que surpreende é que o tenha feito da pior maneira possível, fragilizando ainda mais o Primeiro-Ministro.

Miguel Relvas, recorde-se, deu duas explicações para a sua saída do Governo: primeiro, disse que saiu por “vontade própria” (comunicada ao Primeiro-Ministro “há algumas semanas”); segundo, disse que saiu “apenas e só” por já não ter “condições anímicas” para continuar. Acontece que nenhuma destas explicações favorece o Primeiro-Ministro e a sua autoridade na condução do Governo.

Passos Coelho, convém lembrar, pagou um preço político elevadíssimo pela manutenção de Miguel Relvas no elenco governativo. Condicionado pelas suas relações de amizade pessoal e pelo seu trajecto comum com Miguel Relvas, o Primeiro-Ministro foi incapaz de pôr em primeiro lugar os interesses da governação do País e de tomar, no momento próprio, a decisão que obviamente se impunha em defesa do seu Governo. Ao contrário, aceitou assistir impávido à degradação da credibilidade do Executivo, agravada de cada vez que o Ministro Adjunto saía à rua, falava, cantava ou se envolvia em novas peripécias. E foi preciso chegar às vésperas da divulgação do Relatório da inspecção sobre as licenciaturas da Universidade Lusófona para que, finalmente, a inevitável demissão de Miguel Relvas acontecesse.

Numa situação destas, o que é que seria normal ouvirmos da parte do Ministro demissionário? A resposta parece óbvia: tudo menos que sai apenas e só por “vontade própria” e por já não ter “condições anímicas” para continuar!

O mínimo que seria de esperar era que Miguel Relvas se lembrasse de agradecer a longa solidariedade que Passos Coelho manifestou para com ele e que tivesse, ao menos, a grandeza política de envolver o Primeiro-Ministro no processo de decisão da sua saída, explicando-a como uma decisão conjunta em nome do superior interesse do Governo. Mas não: Miguel Relvas preferiu resumir tudo à sua “vontade própria” e à sua falta de “condições anímicas”. Em suma, a narrativa é esta: por vontade do Primeiro-Ministro ficava tudo como está, Relvas é que já não está para aturar isto.

Como é evidente, a gestão política deste assunto por parte do Primeiro-Ministro foi simplesmente desastrosa. Bem vistas as coisas, a saída de Relvas, depois de adiada para lá dos limites do razoável, acaba por acontecer tarde e a más horas e nas piores condições possíveis: sem qualquer liderança do Primeiro-Ministro e sob a pressão dos resultados incontornáveis de uma auditoria.

Sucede que este é um momento político particularmente delicado para o Governo, em que o Primeiro-Ministro precisava de mostrar capacidade de liderança dos acontecimentos e de proceder, por sua própria iniciativa, à recomposição e ao reforço do Executivo. Desde o início, é evidente para todos a ausência de um “núcleo duro” de coordenação política do Governo, que só uma remodelação profunda poderá colmatar. Certo é que Miguel Relvas nunca foi capaz de cumprir essa tarefa, tal como não se distinguiu no seu desempenho político como Ministro dos Assuntos Parlamentares ou nos vários “dossiers” que lhe foram confiados, com destaque para o processo errático de privatização da RTP e para o fiasco do “Programa Impulso Jovem”.

Dizem alguns que esta demissão de Miguel Relvas criará agora a oportunidade para a tal remodelação profunda que é necessária e que o primeiro-ministro tem vindo a adiar. De facto, há gente que acredita em tudo e, certamente, acreditará nisso também. Mas a verdade é que remodelações a sério, não as faz quem quer, fá-las quem pode. Quem é que terá “condições anímicas” para entrar num Governo destes?

 

Artigo publicado no Diário Económico