08.03.13

Inconcebível

O ministro das Finanças, num novo golpe de génio, resolveu esta semana disparar um torpedo contra as pretensões da Irlanda a uma revisão generosa, em 15 anos, do prazo médio de maturidade dos empréstimos contraídos junto das instituições europeias no âmbito da ajuda externa.

O ministro das Finanças, num novo golpe de génio, resolveu esta semana disparar um torpedo contra as pretensões da Irlanda a uma revisão generosa, em 15 anos, do prazo médio de maturidade dos empréstimos contraídos junto das instituições europeias no âmbito da ajuda externa. Falando no local próprio, em Bruxelas, o que Vítor Gaspar disse não podia ter sido mais impróprio: o resultado pretendido pela Irlanda, sentenciou ele, é “inconcebível”. E de tal forma desqualificou a pretensão irlandesa que chegou a dizer que só a podia entender como uma mera “posição negocial”, nunca como uma previsão do resultado da negociação.

Se seria sempre de estranhar uma posição pública de um ministro português tão inamistosa para um país amigo em dificuldades, é verdadeiramente surreal que o ministro das Finanças faça o papel de opositor do pedido irlandês quando, na realidade, Portugal está formalmente associado à Irlanda no mesmo pedido e todos sabem que o que for decidido para a Irlanda poderá ser aplicado também a Portugal. Por momentos, parecia que Vítor Gaspar tinha passado para o outro lado da mesa, surgindo a desempenhar, com desenvoltura e inexcedível desdém, o papel de credor exigente diante do devedor que vem pedir alguma compreensão. Que belo parceiro foram os pobres irlandeses arranjar!

Já se sabe, o Governo português sempre esteve mais do lado do interesse dos credores do que do interesse dos países periféricos da zona euro atingidos pela crise das dívidas soberanas, sempre alinhou com uma errada leitura da crise e sempre subscreveu, se possível em dobro, as ruinosas políticas de austeridade da senhora Merkel. Mas, sobretudo, o Governo sempre gostou de desempenhar o papel subalterno do “bom aluno” obediente, que não faz perguntas, não tem posição própria e não ousa falar alto nem mesmo para defender os interesses nacionais. Para quem perfilha esta atitude subserviente e passiva, o que dá jeito é que sejam os outros a reivindicar, para depois, sem fazer ondas, aparecer a recolher os frutos do trabalho alheio. Foi assim há um ano, quando a redução de juros, pedida pela Grécia, foi atribuída também a Portugal ao abrigo do princípio da “igualdade de tratamento” e será assim agora quando, depois das novas condições concedidas à Grécia, se souber o resultado da “posição negocial” da Irlanda e da longa luta do Governo irlandês – bem anterior à formalização do pedido em simultâneo com Portugal.

Desta vez, porém, o ministro das Finanças não se limitou a ir à boleia do trabalho dos outros. Desqualificando a posição negocial irlandesa, como fez ostensivamente para ficar bem na fotografia, Vítor Gaspar desqualificou também a posição negocial de Portugal. E não haja a menor dúvida: esta é a pior altura para o Governo português adoptar uma posição negocial fraca. Com os indicadores económicos todos no vermelho, com a zona euro em recessão e com a sétima avaliação do nosso Programa já em curso, este é o momento em que Portugal deveria jogar tudo não apenas numa revisão significativa dos prazos de pagamento dos empréstimos mas também na obtenção de um período de carência e na redução do valor dos juros, a par de uma revisão das metas, dos calendários e das medidas do nosso programa de ajustamento, não apenas para acomodar as derrapagens da execução orçamental mas também para conquistar espaço para medidas voltadas para o crescimento económico e a criação de emprego.

Os irlandeses – que o ministro das Finanças julga dados a posições “inconcebíveis” – perceberam isto há muito tempo. Talvez por isso, a Irlanda conseguiu estabelecer na revisão do seu Programa que só em 2014 terá de atingir a meta de 5% de défice que o Governo português acordou com a “troika” para o ano de 2012 – e falhou. A Irlanda está, mais uma vez, a fazer pela vida. Inconcebível é que o tenha de fazer contra o Ministro das Finanças português.

 

Artigo publicado no Diário Económico