10.08.17

Um grande dia na Casa Branca

Foi com o extraordinário tweet “um grande dia na Casa Branca!” que Donald Trump comentou, em tom festivo, a demissão, por indecente e má figura, do seu diretor de comunicação Anthony Scaramucci, nomeado há apenas 10 dias. A história da passagem meteórica de Scaramucci pela Casa Branca chega a ser escabrosa, com os seus insultos grosseiros aos colaboradores próximos do presidente e a sua crença patológica nas mais espantosas teorias da conspiração. Todavia, Scaramucci é apenas mais um na longa lista dos erros de “casting” e das demissões no seio da Administração Trump, onde consta o próprio chefe de gabinete do presidente, recentemente substituído pelo general reformado John F. Kelly – um veterano de guerra, que o caso não é para menos.

Em apenas seis meses, Donald Trump instalou um ambiente de caos na Casa Branca e transformou-a num verdadeiro “reality show”, onde se sucedem os episódios de confronto, traição e até de espionagem, num clima de permanente agitação e guerra aberta com a imprensa. A audiência, contudo, não parece estar a apreciar o espetáculo: ao fim dos primeiros seis meses, que se concluíram no passado dia 20, Donald Trump tornou-se, segundo as sondagens, o presidente mais impopular da história recente dos Estados Unidos da América. Não é difícil perceber porquê.

Apesar de beneficiar de maioria nas duas câmaras do Congresso, a presidência de Trump tem sido um autêntico fiasco, mesmo à luz do programa que se propôs executar: falhou na reversão do Obamacare (em que, na versão mais moderada, pretendia excluir dos seguros de saúde 15 milhões de norte-americanos); falhou no lançamento do “fantástico” programa de estímulos à economia e reduções de impostos; e falhou na construção do muro com o México e na ideia de pôr os mexicanos a pagá-lo ou de, em alternativa, garantir o seu financiamento com uma imensa cobertura de painéis solares. O mais que conseguiu foi nomear um juiz conservador para o Supremo Tribunal, aumentar brutalmente as despesas militares (à custa do ambiente e da cooperação para o desenvolvimento), iniciar um movimento de desregulação ambiental e financeira e obter uma autorização judicial (provisória) para travar parcialmente a imigração de cidadãos oriundos de seis países maioritariamente muçulmanos. Muito pouco e muito mau.

Na frente externa, desfez muito, mas não construiu coisa alguma: disse não ao acordo de Paris contra as alterações climáticas (a que admitiu regressar, depois do encontro com Macron); disse não às parcerias comerciais transpacífica (TPP) e transatlântica (TTIP); não avançou na renegociação do NAFTA; boicotou o trabalho da ONU; semeou a desconfiança quanto à NATO; bombardeou a Síria; fez-se amigo da Arábia Saudita para vender armas aos árabes; esconjurou o Qatar para vender ainda mais armas aos árabes e envolveu-se numa alucinante – e incompreensível – série de ziguezagues nas relações com a China e com a Rússia.

Certamente, não são episódios o que falta ao “show” que Trump tem vindo a animar na Casa Branca, o que lhe falta – como muitas vezes sucede nos “reality shows” – é uma história com sentido. Fosse um programa de entretenimento, seria uma maçada; tratando-se da Casa Branca, é um perigo muito sério.

 

Artigo publicado no Jornal de Notícias